Deus, cosmos, humanidade: um diálogo de fronteiras

Por Prof. Pe. Dr. Marcial Maçaneiro, scj

Consultor Teológico do Instituto Ciência e Fé

 

Numa perspectiva de diálogo de saberes, valorizando a honestidade intelectual de crentes e não-crentes, este encontro quer aproximar três temas fronteiriços – Deus, Cosmos, Humanidade – pontuando distinções e convergências, em colóquio aberto. Este diálogo exercita o conhecimento interdisciplinar e se faz propositivo para um projeto de cultura respeitoso da diversidade e da dignidade humanas, num contexto de revisão da relação do ser humano com a natureza. Em vista disto, são propostas aqui, a título de sugestão, algumas interrogações que podem referenciar o colóquio:

Deus

A questão de Deus, em sentido amplo, tem suscitado a reflexão não só teológica (desde a admissão de sua existência), mas filosófica e científica, desde séculos. Distinguem-se diferentes concepções da divindade, das expressões mais panteístas até o Deus pessoal da tradição abraâmica, representada pelo Judaísmo, Cristianismo e Islã. Abrem-se muitas interrogações sobre os modos de ser de Deus, sua ação no Cosmos e sua relação com a humanidade. Em sentido estrito, o Deus da Aliança proclamado por Jesus de Nazaré tem provocado muitas leituras e releituras das fontes clássicas do Judaísmo e do Cristianismo, como vemos na produção cultural do Ocidente. A própria comunidade crente, aplicando métodos histórico-críticos aos textos sacros e à revisão histórica, distingue o ser e o agir de Deus das expressões (cultuais, morais e conceituais) daqueles que O professam. Se de um lado o comportamento religioso tem resvalado em formas várias de particularismo e violência, por outro lado, o Deus da Aliança – reconhecido e proposto como Pai Misericordioso por Jesus – afirma-se como amor radical, a quem importam o mundo e os humanos. Os eventos dramáticos do êxodo, da aliança, da reivindicação da justiça e do zelo pelos pobres, órfãos e viúvas são retomados no Novo Testamento, compondo o patrimônio ético e social do pensamento cristão: voltar a tais fontes é criticar, desde dentro, a própria religião cristã, num esforço de fidelidade aos elementos originários do amor, da justiça e da paz propostos no Evangelho. Por tal viés aproximam-se crentes e não-crentes decididos a construir uma sociedade justa, inclusiva e solidária. Em campo ético e humanitário se encontram quem crê e quem não crê, na promoção conjunta da justiça, da paz e do cuidado ambiental. Isto, porém, não resolve o debate em nível de princípios (filosóficos ou ontológicos) sobre a existência de Deus e sua relevância para o cosmos e a humanidade. Seria Deus um mistério apenas vislumbrado pelas tradições religiosas, de fato existente, mas impossível de apreensão pela razão humana? Seria Deus um corolário ideal da própria evolução humana, que se projeta na livre e infinita divindade? Há quem reivindique um Deus liberto das linguagens e noções que o tentam expressar, afirmando-o como Mistério. O próprio cosmos seria um dizer-se dele, uma narrativa de seu ser inaferrável. Outros entendem que tanto ciência quanto religião seriam vias para acessá-Lo, cada qual com sua episteme. Isto tem suscitado diferentes reações, muitas vezes num quadro extremo, que vai do desprezo mútuo entre ciência e religião, até os ensaios de diálogo e colaboração entre as mesmas. Em muitos casos, cientistas se declaram crentes; enquanto crentes reconhecem a autonomia das realidades terrenas como a ciência, o direito e a arte. Neste caso, uns e outros opinam ser possível o diálogo e o compromisso conjunto da ciência e da religião pelo bem comum e a promoção da vida.

Possíveis questões na perspectiva da Fé, em face da Ciência:
a) O pensamento científico favoreceria a autocrítica da religião? Em que âmbitos da religião isto tem se dado?
b) Haveria inspiração científica em alguns modelos e/ou escolas de pensamento teológico? Quais, por exemplo?
c) A fé no Deus da Revelação/Criação pode favorecer a investigação científica? Como?
d) Em que sentido o Deus-Pai revelado por Jesus favorece a afirmação da dignidade humana e a inclusão social?
e) Que aspectos da noção de Reino de Deus serviriam a um projeto de nova humanidade? Neste sentido, se poderia estabelecer parceria com a Ciência em algum desses aspectos?
f) Para o cristianismo, a fé explícita em Deus é necessária à ética? Ou se admitem outras compreensões neste sentido?

Possíveis questões na perspectiva da Ciência, em face da Fé:
a) A fé em Deus, de algum modo, pode favorecer a autocrítica da Ciência? Em que modos ou aspectos?
b) Alguns cientistas se declaram crentes e estabelecem contato entre Ciência e Fé. Você conhece algum exemplo digno de nota?
c) A cosmologia (ao lado da física e da biologia) descarta categoricamente a possibilidade da existência de Deus? Em que medida esta possibilidade é determinante ou não para o método científico?
d) Que noções a respeito de Deus parecem questionáveis ou mesmo perigosas, aos olhos da Ciência?
e) O que a Ciência poderia considerar “sagrado” em nível de princípios, meios e fins?
f) Se não há uma palavra de Deus a respeito da humanidade, quais seriam as fontes éticas da Ciência?

2. Cosmos

O Cosmos, em toda a sua complexidade, é um dado evidente, ainda que não inteiramente compreendido pela razão humana. Mesmo despido de ideologias e tematizações razoáveis, ele se mostra duradouro, imenso, dinâmico e envolvente. Encanta a crentes e não-crentes, em quem desperta admiração, temor e curiosidade, ora como mistério inatingível, ora como terreno a explorar. De modo semelhante, cientistas e teólogos reconhecem o quanto cosmos e humanidade se imbricam, mesmo nos níveis básicos da biologia e da corporeidade. A clássica interação entre microcosmos (humanidade) e macrocosmo (universo) reaparece em nuances novas, quando se fala de holística, epistemologia complexa e ecologia integral. De um lado, cientistas admitem o incógnito como possibilidade de novas descobertas; de outro, teólogos se aproximam de categorias cosmológicas para interpretar as narrativas bíblicas da Criação, repletas de símbolos e emblemas. Além da factualidade do universo em expansão, crentes e não-crentes indagam sobre seu sentido e seu propósito: duração da existência no espaço e no tempo, porque a vida é um fato e quer perdurar; manifestação de beleza que circunda o pequenino ser humano; horizonte de transcendência que aponta continuamente para o futuro; jogo complexo do tempo e do espaço, atravessado por invisíveis ondas… A reflexão de Galileu a Einstein ecoam nos ensaios de Teilhard de Chardin e de Alfred N. Whitehead. Muitos opinam que não será necessário abandonar a ciência para encartar-se com o mistério do cosmos; também não será necessário abandonar a fé para mergulhar na investigação astronômica. Uns e outros avançam em indagações e rascunhos de respostas, das teorias mais sólidas às teses ainda em construção (como a teoria das cordas, a proposta da matéria escura e a busca pelo bóson). Em atenção à Terra – casa de todos – essas teorias são urgidas pela crise ecológica que mata as espécies, fere o presente e destrói o futuro. Crentes e não-crentes se sentem premidos pela extinção das espécies, escassez de água potável, mudança climática, crise energética e ambiental. Do lado da ciência e da fé, vozes se elevam, se cruzam e se conectam para alertar, reciclar, educar, preservar, conservar e prospectar soluções ecológicas. Cientistas se aproximam da religião para ler seus desenhos de mundo e seus antigos saberes naturais; teólogos se iniciam em cosmologia, física, biologia e mecânica para amadurecer sua percepção e sua linguagem, na busca do sentido profundo dos textos sacros sobre a Criação. Uns e outros são guiados por honestidade intelectual, amor à vida, disposição em servir à humanidade e apelo moral em defender o planeta com seu conhecimento.

Possíveis questões na perspectiva da Fé, em face da Ciência:
a) Quais as novas compreensões da Criação do mundo por parte de Deus, à luz da hermenêutica bíblica, em condições de dialogar com a Ciência?
b) De que modo as teorias do Big-Bang e da Evolução promovem a revisão e/ou aprofundamento da teologia da Criação?
c) A afirmação do Deus Criador não arrisca diminuir a autonomia humana na Terra?
d) Que elementos da Teologia da Criação convergem no cuidado ecológico valorizado pelas Ciências?
e) Em que aspectos a visão cristã da Criação pode colaborar com as Ciências na promoção da vida humana e planetária?
f) Que compreensões científicas a religião (no caso, cristã) opina que deveriam ser superadas, em benefício da humanidade e talvez da própria Ciência?

Possíveis questões na perspectiva da Ciência, em face da Fé:
a) Como a Ciência argumenta a necessidade ou a não-necessidade de um Deus Criador para o Cosmos?
b) De que modo a noção de um Criador interage com a Ciência moderna: excluem-se, complementam-se ou seriam epistemologias incomunicáveis?
c) Mesmo sem professar um Criador, a Ciência admite alguma dimensão transcendente no Cosmos? Em que sentido?
d) Quais as indagações do cientista (físico ou cosmólogo) que podem apontar, eventualmente, à religião?
e) Para a Ciência, o Cosmos pode ser lido como uma narrativa de sentido? Há indícios de um propósito no devir cósmico? Ou tudo se reduz a um golpe de sorte?
f) Que compreensões religiosas a Ciência opina que deveriam ser superadas, em benefício da humanidade e talvez da própria religião?

3. Humanidade

Sem desprezar a Deus, sumo e máximo Ser de adoração, a religião se preocupa com a humanidade: olha para o céu, para bem caminhar na terra; contempla as estrelas para navegar com segurança; segue o curso da lua para plantar e colher com gratidão. Sim, é do cenário da natureza que desponta o sagrado, como lampejo do Deus Escondido em todas as coisas. A noção judaica da pessoa humana como imagem e semelhança de Deus não esconde alguma pretensão desmedida (como se poderia pensar), mas é afirmação da dignidade própria do ser humano, conecto mas distinto dos demais seres. No centro desta ciranda de astros e estações está o ser humano, inteiro, ao mesmo tempo filho da terra e filho do céu. De modo semelhante, a mais alta teoria ou abstração conceitual da ciência se vê interpelada pelas urgências humanas: saúde, alimentação, ocupação do espaço, segurança, desenvolvimento. Deste modo, nem a religião nem a ciência pretendem-se progredir desvinculadas do ser humano, tanto individual quanto socialmente admitido. Uma e outra convergem na afirmação da vida humana, na busca de soluções, no compromisso com a justiça e o acesso aos bens. A diversidade de cosmovisões, de valorações morais e de perspectivas históricas verificadas na ciência e na religião (especialmente desde a Primeira Modernidade) pode causar polêmicas e disputas, mas é também oportunidade de se descobrir novas aproximações e convergências no serviço à vida humana. Neste sentido, perduram os desafios da saúde, da nutrição, do desenvolvimento das infâncias, da qualidade de vida em geral, ao lado de novas necessidades emergentes, sobretudo em campo social e ecológico. Como muitos têm advertido, tanto ciência quanto religião podem contribuir ao desenvolvimento integral do ser humano, enredado numa teia de relações com seus pares e as demais espécies. Na opção pelo humano convergem cientistas e teólogos, crentes e não-crentes.

Possíveis questões na perspectiva da Fé, em face da Ciência:

a) Que valores a antropologia da “imago Dei” reserva para os tempos atuais?
b) Como o cristianismo concebe o desenvolvimento integral do ser humano em sociedade?
c) Como a fé cristã colabora à uma relação humanidade/Natureza que supere o antropocentrismo radical e favoreça o cuidado ecológico?
d) O cristianismo pode ser compreendido como um “projeto de humanidade”? Neste sentido, como estabeleceria colaboração com a Ciência?
e) Quais as exigências do bem comum, apontadas pela fé, para uma sociedade mais justa atualmente?
f) Para a fé cristã, o ser humano constitui o fim [propósito] da Ciência? Em que sentido isto indica parâmetros à pesquisa e tecnologia?

Possíveis questões na perspectiva da Ciência, em face da Fé:
a) Que valores humanos a Ciência pode reconhecer no cristianismo, ou na religião em geral?
b) Quais os riscos (históricos, ideológicos ou políticos) que a religião pode oferecer à humanidade?
c) Em vista do cuidado ecológico, que agenda a Ciência poderia assumir em parceria com a religião?
d) Quais as fontes e/ou referências éticas para a Ciência? Neste sentido, haveria convergências com a religião (ou o cristianismo, em particular)?
e) Em termos de bem comum, que urgências a Ciência apontaria hoje? Neste sentido, que agendas se poderia assumir em parceria com a religião?
f) Como a Ciência pondera o papel educativo da religião na sociedade atual?